As boas intenções

 

Petrus corria com o filho de Anna e Henrik nos braços. Tinha saído de casa e atravessava a correr a distância de neve entre a casa e o rio. Anna viu-o da janela e gritou. Henrik ouviu o grito e correu atrás de Petrus que levava o seu filho nos braços, correu com os joelhos falíveis, a respiração quase derrotada. Por momentos parece-nos que Henrik não vai conseguir, o rio vai cego entre a neve, Petrus corre rápido de mais para uma criança que carrega outra nos braços, mas depois, no último instante, vislumbramos o filho de Henrik e Anna a salvo nos braços de Henrik e já não nos de Petrus.

Penso que só o tempo em que Henrik vivia lhe permitiu salvar o filho. No início de outro século, numa povoação pequena, habitando uma casa isolada onde não contava com qualquer distracção, Henrik vivia consciente da solidão e do desamparo a que cada homem está entregue. Acreditando em Deus, em Cristo, nos sacramentos e na ressurreição e em todo o aparato cristão, acreditando com a sua “fé infantil”, sabia que não existe redenção em vida. Nenhuma fantasia, nenhuma adrenalina, nenhum “e se” lhe ocorreu enquanto corria. Depois daquela morte não haveria réplica, ninguém com quem falar, nenhum consolo, nenhuma embriaguez. Só, enquanto vivesse, uma dor sem distracções.

Hoje, a tentação de muitos de nós seria quase indistinta da fraqueza, da impossibilidade, e por isso nem sequer nos saberíamos culpados. Não teríamos resgatado o nosso filho no último instante. A dada altura, correndo na neve, não teríamos podido impedir-nos de nos tornarmos espectadores da nossa própria desgraça, do espectáculo da nossa desgraça. Não o faríamos por maldade, mas porque tudo, para nós, se transformou num espectáculo. Os jornais dariam a notícia? Os amigos lamentar-nos-iam? Seriam solidários connosco nas redes sociais? Quantos dias podíamos tirar no trabalho?

Hoje todos desejamos intimamente uma grande desgraça. Pensamos que o consolo e o fim da solidão, se não podem ser convocados por uma rotina inerme, podem sê-lo pela desgraça. Achamos que só a desgraça nos torna dignos de uma atenção sobrenatural.

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