A raiva tem uma forma obscura, aerodinâmica, como um anjo. Mas o ódio é quadrado como uma caixa, térreo, feito para assentar no chão. Sólido como uma caixa, mas com mais arestas.

Penso que o ódio é uma caixa que alguém pousa no meio do caminho num dia de muito sol. É uma coisa acabada, perfeita, com aquela impressão de fixidez que nos dá o sol nos dias muitos frios. Por isso as cegonhas não o confundem com o ninho. Nem os cínicos o confundem com um bronze decorativo. E até na sombra que o ódio verte no chão há uma esquadria justa, uma contenção de lâmina, a exactidão de um golpe.

Ninguém fala do seu ódio, embora o ódio seja bom condutor, um facto bom de contemplar, algo que se tem prazer em sentir. Fala-se do amor, mas nunca se fala dele como ele é – um pano sujo pendurado junto à torneira de uma cozinha comunitária, um trapo que limpou muitos lábios, mas ninguém gosta de falar dele nesses termos.

Também o ódio é, como o amor de que ninguém fala, uma coisa cristã. Uma devoção torpe, inteira, seriíssima – não há no ódio nenhuma leviandade. Basta senti-lo, como um leão espreguiçando os músculos, pregnante nas suas formas, capaz de rebentá-las de tanta força e perfeição. Basta senti-lo para sentir não mais que um desejo de redenção.

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