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Nunca tinha visto uma ave de perto. Nunca tinha olhado uma ave nos olhos. A andorinha devolvia-me um olhar opaco. Era um olhar voltado para dentro, para a ideia de sobreviver. Um olhar obstinado, feroz, que tinha conhecido a alegria.

P. tinha reparado na andorinha que saltitava na relva do jardim, batendo as asas com um pequeno ruído tenso, semelhante ao estalar de cartilagens, sem conseguir levantar voo. Recolheu-o na palma da mão e observou-o. Não parecia estar ferida, nem parecia uma cria, mas não conseguia voar. P. manteve-a na palma da mão e acariciou-a com a ponta dos dedos. A ave não estrebuchava nem manifestava vontade de fugir. Demos-lhe água, que ela bebeu com a mesma vivacidade que mantinha no olhar, e decidimos que P. ficaria com ela até descobrirmos melhor solução.

No dia seguinte levámo-la ao parque biológico, onde nos disseram que havia quem cuidasse de aves feridas. O calor dentro do carro era insuportável, mas a companhia séria e melancólica de P., vestido de preto, transportando a andorinha na mochila acolchoada, porque lhe parecia que ela tremia de frio, dava um propósito ao trajecto. Perdemo-nos algumas vezes no caminho. Atalhámos por um bairro de casas antigas com jardim e ruas largas onde quase não passavam carros. Havia uma praceta com uma capela. O cheiro morno das flores pesava no ar. Pensei que talvez conseguisse ser feliz se vivesse ali, naquele bairro, numa daquelas casas.

Falávamos pouco, limitando-nos às observações sobre o percurso e sobre o estado da ave. Da autoestrada via-se o vale inundado de luz, o casario irregular e feio. P. encolhia-se no banco. Espreguiçou-se discretamente e voltou a encolher-se. Acompanhei o movimento pelo canto do olho. Era um enleio com o próprio corpo, uma total consciência do corpo, que se torna desejável, atraente a quem observa.

Na recepção do parque biológico, P. tirou a andorinha da mochila e mostrou-a ao homem. Os seus gestos eram seguros e delicados, uma delicadeza que lhe pertencia, que não requeria esforço ou cálculo. As suas mãos secas, os dedos crestados de pontas roídas, eram naturalmente delicados. A andorinha parecia agora mais fraca, lenta, palpitante. O homem pediu-nos que preenchêssemos um formulário, enquanto a colocou numa caixa. Avisou-nos de que podíamos pedir notícias dentro de três semanas.

Sem muito que dizer, sentámo-nos na esplanada a tomar café. Estava uma tarde quente, luminosa, o ar parado e sem sombras. Sob os guarda-sóis os nossos gestos eram mansos. Eu via P., as famílias sentadas, as crianças que brincavam ao redor, com aquela lucidez que sentia no final da adolescência quando passava horas sozinha nos jardins, faltando às aulas, fugindo de qualquer contacto. Era uma lucidez aterradora, tornada ainda mais insuportável pelo esplendor das tardes de Verão. Era como se me tivessem emparedado e me tivessem roubado a voz, o toque, a audição, todos os sentidos que não o olhar – com a visão apurada pelo silêncio e pela imobilidade, eu espreitava com avidez e assombro por uma frincha aberta na parede diante dos meus olhos.

A presença de P. impedia que o desespero me consumisse por inteiro. Apesar da minha tristeza, tínhamos feito um gesto com significado, um gesto em que eu podia colocar a minha fé ao longo dos dias seguintes. Pensei que a sorte da andorinha estava agora ligada à minha sorte. Que tê-la encontrado era um sinal de vida, que se ela sobrevivesse eu tinha a obrigação de fazer um esforço digno, definitivo, para viver.

Três semanas depois, recebemos más notícias. Era um andorinhão, não uma andorinha, e estava ferido quando o encontrámos, por isso não conseguia voar. Não se tinha aguentado. Deixavam-nos um link com informação sobre o que fazer caso voltássemos a deparar-nos com outros casos de aves sem voo.

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