A velocidade do escuro

Muriel Rukeyser

 

I

 

Quem quer que despreze o clitoris despreza o pénis

Quem quer que despreze o pénis despreza a cona

Quem despreza a cona despreza a vida da criança.

 

Música de ressurreição,                       silêncio                           e sulco.

 

II

 

Não mais falar

Ouvindo com o corpo todo

E cada pinga de sangue

Acometida de silêncio

 

Mas o silêncio é feito fala

Pela velocidade do escuro.

 

III

 

Durante a guerra a lassitude, o lago.

Os abetos imoventes.

Brilhos sobre a água.

Rostos, vozes.               Tu estás longe.

Uma árvore que estremece.

 

Eu sou o tronco que estremece e estremece.

 

IV

 

Depois de limpa a neblina

Depois de soltas as chuvadas

O céu põe-se claro

E erigido ao dia o pranto da cidade

Lembro que os edifícios são espaço

Emparedado, para que do espaço se viva

Atento ao facto de este quarto ser espaço

Este copo espaço

Cujos limites de vidro

Me permitem dar-te de beber e espaço para beber

A tua mão, a minha, espaço

Contendo céus e constelações

O teu rosto

Comporta a extensão do ar

Eu sei que sou espaço

As minhas palavras são ar.

 

V

 

Em meio           em meio

Ao homem: age            exacta

A mulher: em curva                 os sentidos em seu labirinto

Frágeis órbitas, verde tentear,           jogo de estrelas

Desenho do corpo dizendo a sua evidência

 

VI

 

Olho através para o real

vulnerável       implicado        nu

devotado ao presente de tudo o que amo

o mundo em sua história levando a este instante.

 

VII

 

Vida a anunciadora.

Asseguro-te haver muitos meios de ter uma criança.

Eu mãe bastarda

Prometo-te

Haver muitos meios de nascer.

Todos se aproximam

Em sua mesma graça.

 

VIII

As pontas da terra unem-se esta noite

Há estrelas escaldantes no encontro.

Estes filhos,     estes filhos

Caem em chamas sobre a Ásia.

 

IX

O tempo é aqui chamado.

Di-lo.                  Di-lo.

O universo é feito de histórias,

não de átomos.

 

 

X

Deitado

ardendo ao meu lado

ergues-te em beleza e alto –

a tua pensativa face –

corpo erótico tocando

em toda a cor e luz –

a tua face erótica

em cor e acendida –

não a cor em corpo-e-face

mas agora inteira,

cores                  luzes                  o mundo ao pensar e alcançar.

 

 

XI

 

O rio corre além da cidade.

 

A água afunda-se em amanhãs

Que fazem suas crias               Ouço a voz dos inaturos

Descortino as frases do meu silêncio.

 

XII

 

Homem jovem de ossos largos do meu sonho

Tenta tirar da garganta um pássaro vivo.

Sou eu ele?      Estou a sonhar?

Sou a ave?        A garganta, serei?

 

Pássaro de bico curvo.

Rasga o que for, o pássaro-garganta.

Lentamente inventado.          Encurvadas lâminas, não longas.

A ave emerge               húmida             a nascer

Começa a cantar.

 

 

XIII

 

A minha noite insone

Contemplando a jóia rude e vulgar

O telhado em cobre atravessando o caminho

Penso no poeta

Por nascer no escuro

Que será a garganta destas horas.

Não.                    Garganta dessas horas.

Quem dirá estes dias,

Se não eu,

Se não tu?

 

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